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MAESTRO ANACLETO AUGUSTO DE MEDEIROS

Exemplo de dedicação e amor a divina arte de Santa Cecília

Anacleto Augusto de Medeiros, nasceu aos 13 dias do mês de julho do ano de 1866, na antiga rua dos Muros (hoje Rua Príncipe Regente) na Ilha de Paquetá, Rio de Janeiro.

Criado no meio humilde onde nascera, nem por isso deixou de tomar conhecimento das grandezas das artes através das histórias contadas pelos mais velhos, das realizações ali programadas em homenagem à Corte e pelos visitantes da Ilha, que falavam o que estava acontecendo artisticamente no continente.

Criança ainda, teve a oportunidade de assistir na própria ilha onde nascera, um concerto instrumental realizado ao ar livre pela Sociedade Musical Paquetaense. Talvez tenha sido esse acontecimento que despertou e revelou sua verdadeira inclinação para a arte musical. O certo é que seu espírito absorveu aquelas melodias, e o fizeram mergulhar em um mundo que somente o artista sente. É um sentimento que só um iluminado por Deus, o Grande Criador do Universo, pode sentir. Tudo viria pouco mais tarde, para surpresa dos moradores da Ilha de Paquetá, no famoso "Te Deum" que compôs.

Daquele momento em diante tornou-se um líder da arte divina, um parceiro de serestas e anfitrião dos colegas e amigos que saíram da ensurdecedora metrópole em busca de uma vida serena e tranqüila, se refugiando também da fase aguda do período político. E a ilha de Paquetá era o refúgio para muitos artistas, o próprio Antônio Carlos Gomes visitou a ilha e elogiou o trabalho de Anacleto de Medeiros, não só pelas inspiradas produções como pela afinação que ele conseguia obter, apesar dos instrumentos serem, em sua maioria, de diversos fabricantes. O Dr. Othon da Costa, presidente da academia Carioca de Letras, diz que a figura de Anacleto de Medeiros marcou vigorosamente a transição para uma nova estrutura, mais evolutiva, do nosso cancioneiro popular. Nessa fase, surgiu a singular e sugestiva personalidade de Catulo da Paixão Cearense, que se ligou muito estreitamente à música de Anacleto.

Com 21 anos de idade formou-se pelo Conservatório de Música, hoje Escola de Música da UFRJ, na classe do prof. Antônio Luiz de Moura, foi colega de classe do maestro Francisco Braga, aluno e amigo do prof. e maestro Henrique de Mesquita apesar dos seus 56 anos.

Para se avaliar em extensão a vida artística de Anacleto, citamos algumas bandas que dirigiu: Banda de música de Magé, Sociedade Recreio Musical Paquetaense, Banda da Fábrica de Tecidos Bangu, Banda da Fábrica de Tecidos de Macacos (atual Paracambi) e outras. Como compositor, produziu centenas de peças como: dobrados, tangos, polcas, valsas, quadrilhas shotes, fantasias, muzucas, obras sacras, etc.

Muitas peças de Anacleto não estão catalogadas, porque naquela época, exista uma prática de homenagear amigos e instituições, e os compositores nem se preocupavam em registrar ou anotar em algum lugar, acredito que muitas peças de Anacleto devem estar espalhadas por esse Brasil afora, como duas peças que estão nos arquivos da Banda Civil Santa Helena de Cabo Frio. Para se ter uma idéia, Ary Vasconcelos em seu livro "Panorama da Música Brasileira na "Belle Epoquê"", revela que, 49 gravações da Casa Edson, todas gravadas pela Banda dos Bombeiros, tem grandes possibilidades de ser de autoria de Anacleto de Medeiros.

Professor de vários instrumentos e maestro disputado para grandes eventos como o que foi publicado no dia 22 de fevereiro de 1895 no jornal "O País": Ao maestro Anacleto de Medeiros é a quem está confiada a direção da maior de todas as bandas, que se pode imaginar; garantimos que em variedades de polcas, valsas etc. ninguém o imitará".

Batista Siqueira atribui ao maestro Anacleto de Medeiros um valor todo especial. Quanto às suas composições, disse que nelas existem mensagens, que como brasileiros, identificamos através dos traços de nacionalismo. Suas idéias são simples, nítidas e até transparentes. Podemos dizer sem medo de errar que Anacleto contribui para a criação do novo gênero da música brasileira, o choro.

Anacleto foi um educador de massas, em uma atividade salutar de criar Bandas e formar novos músicos. Nas suas orquestras Civis também gostava de tocar a clarineta e o saxofone soprano, participava do grupo de chorões que se reunia, no início do século, na loja Cavaquinho de Ouro, com Luiz de Souza (bombeiro), Quincas Laranjeiras, Luiz Gonzaga da Hora, Irineu de Almeida (bombeiro), Juca Kalut, Macário, José Cavaquinho, Albertino Pimentel (bombeiro), LICA (bombeiro), João Ferreira de Almeida (João Mulatinho bombeiro), etc. sem esquecer que Villa-Lobos bem jovem freqüentava o grupo e se tornou amigo de todos, principalmente de Anacleto, inclusive no Choros Nº 10 Villa Lobos usou o tema de "Yara", composição de Anacleto.

Quando foi convocado para ser o maestro da Banda do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal a repercussão na cidade do Rio de Janeiro foi muito grande, porque sem dúvida o Corpo de Bombeiros estava convidando um homem elogiado por todos como um homem de bem, digno, honrado, cumpridor dos seus deveres, maestro, compositor, arranjador, transcritor, e que mudou o estado rudimentar que as bandas se encontravam, dando um novo som, um novo colorido às bandas.

Amou tanto o Corpo de Bombeiros como suas músicas, e ao Corpo de Bombeiros dedicou o dobrado Jubileu, uma das músicas que mais gostava. Achava-a perfeita.

Veio a falecer no dia 14 de agosto de 1907, com apenas 41 anos de idade. Sua morte precoce provocou uma comoção na cidade do Rio de Janeiro. Anacleto partiu há 89 anos, mas sua obra continua e sempre continuará perpetuada por sua querida Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro que tanto amou, e pelos artistas que sabem valorizar a boa música.

"Anacleto Augusto de Medeiros exemplo de dedicação e amor à divina arte de Santa Cecília".

* Extraído do livro "Banda Maravilhosa" de Luiz Viana.